Houve um dia em que a Dani e eu estávamos almoçando com um casal — ela brasileira, ele inglês — e, no meio daquela conversa leve e divertida, percebemos como compartilhávamos experiências que lembram bastante as de casais formados por pessoas de nacionalidades diferentes. No meu caso, essa é exatamente a sensação: viver com alguém que, de certa forma, pertence a outra “cultura”. Mas nem todo mundo enxerga um surdo assim. Por quê?
A Dani se encaixa perfeitamente no que se chama de Surda Sinalizada, uma das identidades Surdas. Embora tenha sido alfabetizada em português, sua primeira língua é a Libras. É brasileira, filha de brasileiros, registrada como brasileira — mas não fala nem escreve em português. É aí que tudo começa a se complicar.
Para muita gente, uma pessoa surda é vista apenas como alguém com uma deficiência física. E a palavra “deficiência”, infelizmente, costuma ser entendida como o oposto de “eficiência”. Ou seja, muitos acreditam que surdos não são capazes de ter autonomia ou assumir responsabilidades. A própria família da Dani morre de medo de que ela faça determinadas coisas sozinha: dirigir, circular por alguns lugares, tomar certas decisões. E, de certa forma, eles têm suas razões — existem relatos de pessoas surdas que sofreram agressões ou constrangimentos simplesmente por não ouvirem uma abordagem policial ou por não responderem a alguém, sendo confundidas com pessoas mal-educadas.
Mas por que eu não trato a Dani como alguém que precisa de proteção constante? Não por me achar um herói — longe disso —, mas porque quero que ela tenha a vida que merece: plena e independente.
Ao longo dos anos lidando com a comunidade surda, com Libras e com o capacitismo desde 2005, percebi que a maior barreira dos surdos não é a surdez em si, e sim a falta de acesso à informações. Quando essas informações chegam até eles de forma clara e completa, o que podem alcançar é impressionante.
Por isso, quando começamos a namorar, fiz questão de ajudá-la com a carteira de habilitação. E quem dirigiu do interior de São Paulo até o Rio de Janeiro na nossa lua de mel foi ela — para o total desespero da família. E olha que enfrentamos serra, chuva e até árvores caídas na estrada.
Não se trata de me colocar como salvador. Eu só acredito que o melhor para qualquer pessoa surda é ter acesso à informação — sobre tudo: economia, saúde, política, ciência, tecnologia, relacionamentos e tudo mais que desperte seu interesse. E, nessa caminhada, ela também tem me ensinado muito. Mas admito: ela é exceção dentro de uma realidade que ainda precisa mudar.

Na verdade a maior barreira na vida de um surdo é a deficiência da sociedade em se comunicar com eles.
O ditado diz que “uma andorinha só não faz verão”, e eu sei exatamente o que isso significa quando penso na comunidade surda. Ainda falta muito para que o enorme fluxo de informações ao nosso redor esteja disponível diretamente a eles, sem depender de um amigo ou familiar interpretando tudo.
Sonho com o dia em que a independência informacional dos surdos seja uma realidade. A tecnologia, somada a profissionais qualificados em tradução, é o caminho para criar não apenas janelas, mas verdadeiras pontes entre o mundo falado em português e o mundo sinalizado em Libras.
Até lá, sigo feliz sendo o intérprete permanente da minha querida Dani — e construindo, com ela, um cotidiano em que informação vira liberdade.
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